quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Inglaterra: a guerra da religião

O matrimônio homossexual, a proibição de rezar e o cartão religioso


ROMA - "Não podemos permitir que este ato de vandalismo cultural e teológico aconteça”. Com estas palavras, o ex-arcebispo de Canterbury, Lord Carey, descreveu a sua oposição ao projeto do primeiro-ministro britânico de legalizar o "matrimônio” entre pessoas do mesmo sexo.
Lord Carey é uma das pessoas que está por detrás da recém-formada Coalition for Marriage (Coalizão para o Casamento), que lançou uma campanha de protesto contra a legalização do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, conforme relatado segunda-feira, 20 de fevereiro pelo The Telegraph.
A Igreja Católica cumprimentou favoravelmente a a criação desta coalizão. "O matrimônio é uma instituição social fundamental e nem o Estado e nem a Igreja têm o direito de redefinir o significado”, disse o arcebispo de Southwark, monsenhor Peter Smith, presidente do Departamento de Responsabilidade Cristã e Cidadania da Conferência Episcopal da Inglaterra e de Gales.
"Junto com a Igreja da Inglaterra e da nova Coalition for Marriage, vamos incentivar as pessoas a assinarem a petição, registrando a sua oposição à mudança da lei sobre o matrimônio”, acrescentou o prelado num comunicado de imprensa do 20 de fevereiro.
O debate promete ser muito aquecido. "Lord Carey fica do lado errado, não só da história, mas da moralidade, da compaixão e da razão", disse um editorial publicado nesta terça-feira, 21 de fevereiro no jornal The Independent.

A oração nos conselhos municipais
A mudança nas leis do matrimônio não é a única polêmica neste momento. A Alta Corte declarou recentemente que o Conselho comunal de Bideford (Devon) agiu ilegalmente quando permitiu orar nas reuniões.
O processo, que começou em 2010, foi lançado pela National Secular Society, depois de uma queixa apresentada por um membro ateu do Conselho, Bone Clive, segundo relatos, do dia 10 de fevereiro, da BBC.
De acordo com o julgamento do juiz Ouseley, as orações podem ser ditas se os conselheiros nao forem formalmente convidados a participar.
"A marginalização do cristianismo significa esvaziar o nosso sistema de valores e a nossa cultura, e isso me preocupa mais do que qualquer outra coisa," disse Lord Carey em um artigo publicado dia 11 de Fevereiro pelo jornal The Times.
O concílio Municipal anunciou, portanto, que vai recorrer à decisão e que nesse interim teria mantido o momento de oração antes do início das suas reuniões, conforme relatado pela BBC dia 16 de Fevereiro.
O nível de tensão sobre o tema da religião é tão alto na Grã-Bretanha que a rainha Elizabeth II fez uma rara declaração pública sobre a questão.
"O conceito da nossa Igreja estabelecida vem ocasionalmente mal interpretado, e acredito que, geralmente subestimado", disse a Rainha, segundo referido pelo Times do 15 de fevereiro.
Em um discurso pronunciado na residência em Londres do Arcebispo de Canterbury, Lambeth Palace, a rainha tinha se dirigido aos chefes de nove credos diferentes, isto é, cristãos, bahá'ís, budistas, hindus, jainistas, judeus, muçulmanos, sikhs e zoroastrianos, declarando: "As nossas religiões nos oferecem uma guia básica de como vivemos nossas vidas e da maneira como tratamos uns aos outros."
Há uma longa história de controvérsias e batalhas legais nos últimos anos. A hostilidade contra os cristãos tem sido objeto de um relatório publicado em janeiro pela Media Premier.
Do Report on the Marginalisation of Christianity in British Public Life 2007-2011 (Relatório sobre a marginalização do cristianismo na organização da vida pública britânica 2007-2011) emerge, de fato, que um número significativo de cristãos sentem um forte preconceito contra os cristãos e contra os cristãos na vida pública.
O relatório criticou a maneira como a mídia cobriu os processos judiciais sobre a discriminação dos cristãos e da investigação emerge, além do mais, a existência de um número injustificável de representações negativas dos cristãos nas novelas e nos programas televisivos.
No que diz respeito à maneira como os juízes interpretam as normas sobre a igualdade e sobre a anti-discriminação Media Premier faz notar que "quando se trata dos direitos em concorrência entre os diferentes grupos, os direitos dos cristãos parecem ser 'sacrificados no altar do politicamente correto".

Cartão Católico
Como reação a tudo isso, a Igreja Católica está distribuindo um milhão de cartões religiosos ou "faith cards” (cartão de fé) nos meses de fevereiro e março.
Trata-se de uma idéia do Departamento para a Evangelização e a Catequese da Conferência Episcopal da Inglaterra e de Gales. De acordo com um comunicado de imprensa do 31 de janeiro, são do tamanho de um cartão de crédito e têm um espaço onde o proprietário pode assinar uma declaração clara, dizendo que o portador é católico, bem como uma lista de seis coisas que os católicos estão chamados a fazer.
Há também a frase que diz "em caso de emergência, por favor, ligue para um sacerdote católico."
"O cartão religioso para os católicos tem como objetivo oferecer um lembrete diário do que significa ser um seguidor de Jesus Cristo", disse monsenhor Kieran Conry, presidente do Departamento para a Evangelização e a Catequese.
Diante da crítica da mídia, um desenvolvimento positivo é a transmissão de uma mini-série televisiva em três episódios sobre os católicos, que começou dia 23 de fevereiro no canal 4 da televisão pública, BBC Four.
Um comunicado de imprensa dos bispos da Inglaterra e de Gales informou que o primeiro episódio está dedicado aos seminaristas e os outros dois oferecem uma visão sobre a vida de algumas crianças e mulheres.
Justamente sobre os seminaristas, então, há algumas notícias positivas, de acordo com o referido pelo The Independent do 19 de Fevereiro. Para o padre Christopher Jamison, diretor do Departamento Nacional  para as Vocações em Londres, o número atingiu o fundo do poço em 2001 com apenas 26 candidatos que entraram nos seminários da Inglaterra e de Gales. Em 2010, entretanto, o número mais que duplicou para 56.
Uma boa notícia que estávamos esperando!

Por Pe. John Flynn, LC
[Tradução Thácio Siqueira]

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